Ainda é recente
o tempo em que tudo mudou.
Não ficou melhor.
Só tomou outro rumo.
Hoje a casa
não prende mais a respiração
quando alguém gira a chave.
Hoje ninguém precisa
escolher as palavras
antes de falar.
Minha mãe.
Meu irmão.
Eu.
Aprendemos cedo
que uma palavra errada
podia mudar o ar.
Um olhar.
Um não.
Qualquer coisa
que você entendesse
como afronta.
Hoje não tem agressão.
Hoje não tem intimidação.
Não aqui.
Seria mais fácil
se fosse só a bebida.
Seria mais fácil dizer:
"ele não sabia
o que estava fazendo."
Mas havia manhãs
sem álcool.
Dias inteiros.
E o medo
era o mesmo.
Daqui não passa...
não ma-a-ais.
Você já teve
espaço demais.
Daqui não passa...
não ma-a-ais.
Eu ainda carrego
o que você deixou em mim.
Mas eu já vivi tempo demais
com medo de te contrariar.
Daqui não passa...
não mais.
Eu ainda me pergunto
se você nasceu assim.
Ou se fizeram isso com você.
Talvez exista uma resposta.
Talvez alguém
tenha te ensinado cedo
que força e medo
eram a mesma coisa.
Mas entender de onde veio
não muda o que chegou até nós.
Origem
não é desculpa.
Você contava histórias
como se fossem engraçadas.
Eu lembro daquela.
A bicicleta.
O gato amarrado.
E você ria.
Você ria.
Eu era criança
ouvindo meu pai
contar aquilo.
E alguma coisa em mim
já sabia.
Alguma coisa
já sabia
que havia algo errado.
Não precisava de álcool.
Não precisava de motivo.
Às vezes bastava
ser contrariado.
E tudo mudava.
O olhar.
A voz.
O ar.
E nós aprendíamos
a desaparecer.
Daqui não passa...
não ma-a-ais.
Você já teve
espaço demais.
Daqui não passa...
não ma-a-ais.
Eu ainda carrego
o que você deixou em mim.
Mas eu já vivi tempo demais
com medo de te contrariar.
Daqui não passa...
não mais.
Eu queria dizer
que isso não me afeta mais.
Mas seria mentira.
Tem coisas suas
que ainda vivem em mim.
Tem dias
em que eu escuto sua voz
antes da minha.
Tem momentos
em que meu corpo ainda espera
alguma coisa acontecer.
Mesmo quando
não há ninguém ali.
Eu queria dizer
que passou.
Mas algumas coisas
não passam.
A gente aprende
a não deixar que elas mandem.
Você sempre dizia
que era respeito.
Eu também chamei assim.
Durante anos.
Porque era mais fácil
dar outro nome
para aquilo.
EU PASSEI ANOS
MEDINDO PALAVRAS.
ANOS
OLHANDO PARA O CHÃO.
ANOS
CHAMANDO MEDO
DE RESPEITO.
NÃO ERA RESPEITO.
ERA MEDO.
Hoje eu consigo dizer não
sem esperar o impacto.
Consigo fechar uma porta
sem imaginar você atravessando.
Consigo escolher distância
sem chamar isso de culpa.
Você continua sendo meu pai.
Mas isso
não te dá acesso a mim.
E talvez minha voz
ainda trema.
Talvez algumas lembranças
ainda doam.
Talvez uma parte de mim
ainda volte para aquela casa
quando fecha os olhos.
Mas eu voltei
vezes demais.
Agora eu fico aqui.
Daqui não passa...
NÃO MAIS.
Você já teve
espaço demais.
Daqui não passa...
NÃO MAIS.
Eu ainda carrego
o que você deixou em mim.
Mas não carrego você
para onde eu vou.
Eu já vivi tempo demais
com medo de te contrariar.
Daqui não passa.
Daqui...
não passa.
NÃO MAIS.
Tudo aquilo
que chegou até nós...
não passa de mim.
NÃO VIRA HERANÇA.
Eu ainda não sei
se você nasceu assim.
Ou se fizeram isso com você.
Talvez eu nunca saiba.
Mas sei onde termina.
Aqui.
Comigo.
Não mais.